Ventanias.

Eu tento conter o frenesi de escrever sobre teus lábios malditos, de carregar teu corpo com a minha pele arrepiada e juntos acharmos o caminho para Nárnia, eu queria desnudar-me dessa neblina que me encobre atracada em seu cais, dois copos cheios, dois corpos vazios, em um tapete persa chamuscado pelo carvão do narguilé, continue com isso amor, é apenas o que peço, não me deixe por meu estado ser deplorável demais, por que hoje só mostro metade das minhas chagas para não acarretar teus belos olhos que se tronaram meu horizonte, e te fizeram inferno pessoal.
Secretária da Morte 
É assim que as esperanças nascem? É assim que as esperas sentam e clamam e pedem e se desesperam? Já é Novembro, e não que o mês importe, mas o ano passou rápido até para quem não teve tempo de desviar os olhos. Mas eu desviei… Eu desviei quando os raios solares castigaram ou quando a chuva me impediu de ter um reflexo bom do mundo. Não do mundo, mas de um universo que cabe em um ser bípede e mortal demais. Nós deveríamos saber disso. O quanto a vida é silenciosa, barulhenta mas que no fim das contas, tudo se resume na mortalidade dos heterônimos e metáforas que a gente cria. Eu criei um pseudônimo para as despedidas. E até eufemismos para esse não-ficar absoluto e irrevogável. Saídas sempre foram contratos sem cláusulas reversíveis. Eu estudo tantos artigos, baby, e nenhum diz que você deve ficar. E nenhum me grita que você deve voltar. A chuva anda despedaçando a tinta do teto e é desse jeito mesmo. Podem falar do que quiserem, mas os dias nublados trazem o clima difuso, a nuvem que reveste os olhos e que escurece as vistas. Eu nunca liguei pro escuro. Eu nunca liguei se as lâmpadas vivem apagadas e as janelas lacradas. Mas as piores notícias não vem com o calar da noite ou a mudez das madrugadas. Vem no calor do sol, no rubor da face e no auge da felicidade. Vem sorrateiro e segura nossos pés, nossos sonhos, nossas esperanças. A vida não é triste, mas talvez meus olhos sejam. Não como uma confissão da alma, mas como um aviso que apavora as fábulas… viver não é um conto escravo. É esse estar sedutor que envolve e acolhe e deixa e remove. Este som e fúria, os portos e os cais. Crescer era essa onda navegável que não dava enjoo, mas hoje dá. Dá, não porque o vento mudou de rumo, mas nós mudamos. Nós giramos as velas, os mastros, as poupas e resgatamos esses brechós de sentimentos que se aninham em correntezas frias e sem destino certo. O tempo, o jeito, o freio são incertos demais para as nossas certezas.
G.F.C., antes as aparências não contavam. Hoje, os rumores do corpo são a matemática da alma.   
Eu só queria alguém que não fosse embora. Que não desistisse ao perceber que eu sou mais erro que acerto. Sou uma falha. Mas eu simplesmente gostaria que alguém olhasse pra mim e percebesse algo de belo e incomum nessa bagunça. E me amasse. Só que todos só sabem ir embora depois das minhas meias palavras ásperas nos dias ruins. E eu não sei como fazer para segurar mais apertado. Porque minha garganta dói e meu sorriso não aguenta mais nenhum segundo. Quero me perder dentro de um livro e mergulhar em qualquer outra realidade que não envolva ser deixada de lado. E até agora, tudo que eu chorei parece bobagem. Parece bobagem sentir tanta tristeza por tão pouco. Mas é que vazio cansa. Vazio machuca. Vazio nos faz esquecer do que é ser completo. Eu me esqueci.
kimaria 
Sinto a depressão voltando. Não vou usar metáforas para meu estado de espírito. Não são sombras que se aproximam nem o sono contínuo, é uma doença. Mais séria do que imaginam. Não é drama quando há um suicídio, mas, é drama quando o suicida reclamou de dores no peito. Não estou questionando nada. Apenas afirmando os fatos. São dores que atingem meu peito várias e várias horas por dia. São os pesadelos que me assombram e tiram meu sono que me levam a essa quadro e texto de melancolia. Sou pura nostalgia. Sou um ser que vive de lembranças, carrega dores fortes e sorrisos falsos. Sou um caso psiquiátrico comum e ainda assim único. Aborreço-me com as pequenas coisas. Vejo-me perdido em idéias confusas e sempre no lugar errado. O mundo parece errado. Como diz Nando Reis, está ao contrário e ninguém reparou. Pra mim, ninguém se preocupou. Do mesmo jeito que desisti de lutar, as pessoas boas desistiram de mudar o planeta. Digo isso, porque entendo. Por mais que hajam crianças e inocentes esperançosos, não acredito mais nisso. Não há esperança. Não há um dia de sol por vir. O fim é sempre escuro. Todos os dias anoitecem e é a noite que vêm a tona os pesadelos. Os poderosos são favorecidos pela escuridão. Tudo às avessas, embaixo do pano, escondido do povo. Não há chances de vencer de dia. Quem quiser, trocar o mundo de lugar, que lute, que tente e que não conte comigo. Percebam que incluí metáforas ao final, notem o incompetente que sou, nem mesmo promessas consigo cumprir. Não sei mais o porquê disso tudo. Perdi o foco, perdi o dia, perdi a luta.
Não há um fim decente, relato de mais um deprimido.   
No meu armário guardo uma metralhadora de mágoas. Cazuza sempre me entendeu. Nunca haveria uma única chance de um dia te abandonar. Meus instintos mais hostis nunca permitiriam tal ousadia. Cada movimento meu sempre foi exclusivamente regido pelo desejo de te manter na mira dos meus holofotes, principalmente na minha cama, sob as minhas mãos rudes. Ah… minha doce menina que de tão doce amou a liberdade e encontrou com a sua própria loucura escrita em tailandês. Um tipo estranho, estrangeiro, rapaz corpulento de poucas palavras, mas com coragem de lhe arrancar de mim. Desculpe a ruidez da alma, o calar da noite, o medo das esquinas vazias, o pensamento do transeunte bêbado após o tiro que acertou em cheio teu coração. Eu me transformei numa espécime de homem-bomba, poeta inútil e demente. Minha mente doentia chegou ao seu apogeu. Naquela noite eu fui guiado por cada partícula, átomo e hemoglobina do teu sangue que fervia na presença daquele rapaz. Você precisa me entender. Eu nunca fui homem de meias palavras e fui atingido por um míssil teleguiado de fúria e traição. Sou uma criatura perturbada pelo fato coexistir sem nenhuma resistência. E como coexistir sem a tua presença? Te matei nas vésperas do teu aniversário no bar do Seu Nireu. Hoje, teu presente é a minha morte. Henrriques, jan,1976.
Elisa Bartlett  
Era uma beleza sentir aquele sol no pescoço e então sonhar, e cochilar, e tentar não pensar no aluguel, e na comida, e na América, e nas responsabilidades. Ser ou não ser um gênio me importava menos do que o fato de não desejar nenhuma parte daquilo tudo. A força animal e a energia dos meus companheiros humanos me assombravam: que um homem pudesse trocar pneus ao longo de um dia inteiro, ou dirigir um caminhão de sorvetes, ou concorrer a uma vaga no Congresso, ou abrir as entranhas de um homem numa mesa cirúrgica, ou cometer assassinato, isto estava além da minha compreensão. Não queria nem começar. E continuo não querendo. Cada dia que eu conseguia escapar desse modo de vida tinha para mim um sabor de vitória.
Charles Bukowski 
Quando se vive só, não se fala muito alto, não se escreve também muito alto: pois se receia o vazio do eco, a crítica da ninfa Eco. - Todas as vozes têm outro timbre de solidão.
Nietzsche - “A Gaia Ciência (Na Solidão)   

-Maria odeia carnaval-

Não farei do cinza, meio luto, nem da dor meia alegria e Jamais farei da fraca lembrança, total esquecimento. Não farei da policia motivo de sossego e nem do pobre que rouba, terei tanto medo, não farei do jornal do meio dia, minha bíblia.
Favela não precisa de policia!
Os ratos pedem: Homens de preto, que se embriagam no centro da cidade, eliminem essas fezes cinza, que andam em carros cinzas e que humilham e matam sem dó, os meus filhos, crias de rua. As fezes cinza merecem a morte, já que gostam tanto do cheiro dela.
Ontem sumiu, Muçu, uns dos meninos do Recife. Muçu era viciado em cola e tinha todos os dias a sua garrafa pet pela metade, de cola novinha, isso era tudo pra Muçu, não, moço, ele não roubava, Aliás roubava sim! Era especialista em tirar das tias das barraquinhas de lanche ambulante, largos sorrisos e altas gargalhadas, com suas palhaçadas, ele também ganhava uns trocadinhos varrendo as frentes de algumas lojas. Na noite de sua morte , Muçu tinha ido cagar no pátio de São Pedro, ali, bem embaixo da estatua do poeta Solano. Ele disse que queria arriar a lombra e foi cagar na rua por trás de onde ficavam os seus papelões, não ouviu-se nada a pancada deve ter sido certeira, com intenção de desmaiar o garoto, de repente sai um carro cinza, com sirenes apagadas e catando pneu. Noutro dia, no repórter do meio-dia, anunciou que foi encontrado um corpo boiando no rio Capibaribe, disseram ser um corpo de um garoto branco, cabelos enrolados, estava sem camisa e tinha o nome “Maria” tatuado no peito, de um ombro ao outro, não restou-me duvidas, era Muçu. Colocaram o caso da morte de Muçu como acerto de contas e disseram na TV que um cheira-cola chamado Muçu, devia dinheiro à traficantes, difícil de engolir essa, não é, mas era dia de Galo da Madrugada, quem queria saber da morte de um cheira-cola? Mas eu me pergunto, como que ninguém viu Muçu sendo posto na mala da viatura, ou ao menos cagando bem debaixo da estatua do poeta. Muçu era branco, mas não invisível, ou era? O garoto receberá o apelido de Muçu, por seus amigos, pois arrancava risos imitando o personagem dos trapalhões, era também fã do personagem, mas Muçu lembrava mesmo era o anjo Gabriel. A maioria das lojas em que Muçu varria a calçada, no mesmo dia arrumou um outro garoto viciado pra fazer o serviço, só uma não abriu nesse dia, em forma de luto, foi a loja do seu Jonnas.
Seu Jonnas era um senhor de idade que um dia sim e outro não colocava as fitas cassetes dos trapalhões na antiga TV de sua barraca, para garoto assistir, seu Jonnas tinha toda a coleção completa. Todos, com o tempo voltaram para a antiga rotina, mas sem as altas gargalhadas, porém com um riso meio vazio, como que no ato da graça a lembrança de Muçu invadisse a mente e então o alto riso era contido. Eu não era sua mãe, mas o nome tatuado em seu peito era “Maria”, nome de sua falecida mãe e embora ele nunca soube, era o meu nome também . A mãe de Muçu era uma prostituta da praça do diário que foi morta por um ex presidiário, que disse com frieza para o repórter que á matou porque não ficou satisfeito com o sexo. Muçu não era meu filho, mas eu não sei por que não, afinal eu também sou Maria, a ambulante da Conde da Boa Vista. Nem dá mais pra contar nos dedos as vezes que o levei ao hospital publico, quando ele passava mal por cheirar cola mesmo sem ter comido por quase dois dias. Eu amava aquele garoto e tudo dele que tenho agora é essa flor que eu nem sei o nome, disse ele que pegou no 13 de maio e lembrou de mim, como um garoto, completamente drogado de cola, pegou uma flor no parque, e lembrou logo de mim, eu, Maria a pobre ambulante da Avenida Conde da boa vista. Depois do dia da morte de Muçu eu nunca mais fui a mesma, não depois de ter o meu nome sujo de sangue no peito do meu menino, filho que a rua me deu, que eu tomei como meu e que de mim foi tirado pelos homens podres, de farda cinza, monstros imundos dos carros cinzas das sirenes cor de sangue, assassinos com sangue nos olhos e do coração de pedra negra e fria como as calçadas das ruas do Recife, anoite, quando Deus dorme, quando os loucos vivem e as rezas falham e o gemido da dor da fome não vence o barulho da chuva, quando os ratos dividem os esgotos da cidade com os carniceiros de farda cor de cinza. O céu está negro, Maria nunca mais será a mesma e é quarta-feira de cinzas.

A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma. E as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos. A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne. De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular. Ninguém nunca encontra o par ideal. As lixeiras da cidade se completam, os ferros-velhos se completam, os hospícios se completam, as sepulturas se completam, nada mais se completa.
Bukowski.  
Tentei esconder sua imagem de todos os prováveis cantos em que ela apareceria, mas como de praxe esqueci-me de cobrir o lado esquerdo da cama, aquele que era seu e onde é possível sentir o cheiro do seu perfume amadeirado, se bem que não sei se o perfume te deixava um aroma agradável ou a sua pele produzia este cheiro que me faz lembra até mesmo do seu sorriso. Creio que o que sinto ainda não é saudade, sabe aquela falta de algo que tu sabes que não tem volta?! É isso o que meu peito sente, ele sabe que teus pés não cruzarão a porta de entrada chamando por meu nome, assim como sabe que ao entrar no banheiro não vou te encontrar fazendo a barba ou enxugando seu corpo após o banho. Você se foi, porém, as lembranças permanecem no mesmo lugar, algumas escondidas por lençóis já desbotados, mas elas estão lá, esperando para serem descobertas e afogarem meu coração na sofreguidão que fará parte de mim por certo tempo.
Joy Luz  
Eu tenho me sentido estranho, talvez meio longe, talvez meio perdido. Tenho tentado levar os dias com mais calma, tenho tentado dormir sem tanto peso. Aceitar as coisas como ela são é realmente difícil, afinal a gente sempre quer um pouco mais e isso talvez seja da natureza humana. Mas não sei, me sinto o erro, ou talvez eu me importe demais com os pequenos detalhes. Realmente sou complicado, tenho muitas dúvidas, tenho muitas perguntas e mal sei como agir diante da vida, mas estou tentando levar, seguir em frente e deixar que a vida mostre o caminho certo.
O Contador.